terça-feira, 1 de maio de 2012


ZÉ DE JOCA E A ESTÁTUA.

Geraldo Bernardo




Por astúcia de não sei de quem
Zé de Joca, que era arteiro,
Inventou um tal artificio
Pra ganhar fácil dinheiro.
Sabotou a inocente estátua
De frei Damião milagreiro.

Vinha gente do sertão inteiro,
Buscar o líquido sagrado
Que escorria dos pés do santo
Milagroso e abençoado.
Depois de missa e romaria
Zé de Joca foi flagrado.

Viram do alto do sobrado,
Que fica alí bem em frente,
O sujeito armar um sistema
De irrigação muito eficiente
Era só abastecer a cabeça
E descer pelos pés a corrente.

Deste episódio pra frente
Sumiu o que era caravana,
Zé perdeu o emprego de vigia
Naquela mesma semana.
A estátua: pedra era, pedra é.
E Zé acabou os dias na “cana”.

segunda-feira, 19 de março de 2012

ELEIÇÃO EM CIDADEZINHA.



Por Geraldo Bernardo


Eleição em cidadezinha
É cheia de curiosidade.
Vou contar o que “assucedeu”
Numa eleição em minha cidade.
Conto o milagre santo
Sem denunciar a autoridade.

Zé Redeiro, por vaidade,
Candidatou-se à prefeito –
Chico de Doca era o vice –
Planejavam comprar o pleito.
Nem pra falar em comício
Prepararam-se direito.

Um dia, Zé tava sem jeito,
Sem saber do que falar.
Lembrou-se de sua infância,
“Sonhim” era o nome do lugar
Onde nascera sua mãe,
Que “Nos Pereiros” foi morar.

No céu explode o pipocar,
Dos fogos de artifício.
Em riba de uma “Três Quarto”
Zé Redeiro cumpria o ofício
De contar pra multidão,
Sua infância, triste e difícil.

A turba que estava indócil
Logo ficou silente.
Zé abria o cofre das emoções
Atraía atenção de toda gente.
Num tom sério e pausado,
Dizia, tão sofregamente:

– Sou um pobre sobrevivente
Que vivo de vender rede.
Vendo o pano do fundo,
Toda cor: azul, branco, verde...
Zé de Doca, que é meu vice,
Faz o punho e monta a rede.
 
Mas, já passei fome e sede,
Hoje mesmo, que não almocei,
Num nego, tô aqui só com um ovo.
Pior sofrimento já passei,
No “Sonhim” de minha mãe.
Num sei como não me lasquei,

Do tanto que trabalhei,
“Nos Pereiro” de meu pai.
Hoje, tenho umas “melhora”,
Mas, da lembrança não me sai,
Que nos meus dias de menino,
Vivia choramingando “ais”.

Há quem nem acreditar vai,
Mas, vou contar como eu dormia.
Numa cama de pau duro,
No espinhaço chega ardia
As varas de marmeleiro.
Meu Deus como nós sofria.

Um assessor ao seu ouvido assobia
“Use o plural, empregue o plural”
Zé ouviu e logo arrematou:
Digo a família do Plural
Que ganhando esta eleição
Ninguém da casa passa mal.

Vou arranjar emprego pro Plural,
Pro Cosme, Antonio e Raimundo.
E pra não haver sofrimento,
Ter o melhor sono do mundo,
Vamos distribuir rede,
Doca dá o punho e eu dou o fundo.











sexta-feira, 16 de março de 2012

TÁ CHEGANDO!!!


A ENCOBERTA – a história de uma santa sem altar.
CAPITULO 1 – A grande mordida.
PRESEPADAS, MUNGANGAS E FURDUNÇO, como esta:
O prefeito daquela praça.
Disse: - Hoje tem confusão!
Deu um soco no controlista,
Que se valeu dum balcão
E logo se escondeu embaixo.
- Olhe que sou cabra macho.
Rastro de cobra? Vi, ainda não!

sábado, 18 de fevereiro de 2012

BONITO É SE LHE PARECE ou AS DESVENTURAS DE JOÃO TIMBÚ.

 
Deus-Nos’senhor tem no mundo
– seu terreiro – variada natureza,
do jacaré até a flor.
Alguns com muita formosura,
alinhados e bem faceiros,
outros, coitados, só de olhar dá gastura.
O capricho do destino quis João Timbú,
desde menino, feio do jeito que era,
gostar de uma formosa moça
bonita e rubeculosa, a filha de Manuela.
De batismo era Edinalva,
Porém, Dadinha ela se chamava.
Tinha os cabelos mais pretos
que a crina da égua de Dona Edjenalda.
Os olhos puxados nos cantos, com aquela cor trigueira,
era a menina um encanto, cara de curumim faceira.
Vivia nos “trinques”.
Botava roupa elegante, já na segunda feira.
Timbú...,  era um  “malamanhado”, 
tinha umas “venta de boi”,
os olhos “aboticados”, o cabelo era ruim,
parecia ninho de rolinha,
amava Dadinha.
Oh! Coitado. Sofria grande dor, pois,
sabia, a pequena tinha esplendor.
Ele, por sua vez, se achava desgraçado,
incapaz de declarar seu amor.
Desde menino sofria a sina.
Ainda mal se arrastava, ia em busca de Dadinha
como quem não queria nada, num mar de inocência,
todo exibido e feliz.
Carregava os chinelos de Dadinha 
quando ficou maiorzinho.
O tempo passava...
Timbú com seu jeito desconfiado,
era campeão de bandeira e “bila”.
E Dadinha dando... de crescer o corpo.
O amor de Timbú ela  notava!
Brincava com seus sentimentos de Romeu.
Escravizava o enfeitiçado,
obrigava fazer “de um, o tudo” pra ela -
levar recado, encher os potes, pilar o milho
e torrar o café -, depois o humilhava.
E o besta voltava e fazia tudo novamente,
bastava ela dar-lhe uma piscadela,
alisar-lhe o cabelo, rebolar maliciosa,
era a criatura mais venenosa, leviana e vaidosa.
Ele, porém a achava, linda graciosa, 
a mais perfeita donzela.
Brincavam de cair no poço, 
era quando Timbú escapulia,
pois, naquele coração moço 
sentia uma facada danada,
quando Dadinha caía e a outro ela beijava.
Quando era noite de fogueira, 
mês de Maria, toda faceira,
Dadinha parecia um tesouro.
Não carecia perfume de loja, 
tampouco viver coberta de ouro.
Seu vestido de chita, bem cintado na cintura,
mostrava a todo mundo, o tamanho da criatura.
Mesmo sem usar loção, seu cheiro era gostoso
fazia Timbú sentir até tontura.
Timbú era soltador de fogos, 
para tal tinha desenvoltura.
No coração, porém, abrigava grande mágoa,
era triste saber que amava uma moça impura,
era o que todos diziam:
- Depois da novena, namora o primeiro 
que lhe passar a mão na cintura.
- Homem! Sai dessa, procure outra 
que lhe queira essa aí é uma fuleira.
Cada vez mais, o infeliz nutria um amor desmedido.
Tinha uma fé pia, um dia Dadinha lhe amaria.
Como nas tortas linhas da Criação, 
o caminho é espinhoso,
achou Dadinha de arranjar um esposo.
Gente de fora do lugarejo!
Timbú partiu para o Sul, por desgosto e precisão.
Virou operário padrão, 
ganhou dinheiro e confiança do patrão,
casou, fez filhos e comprou carro.
Voltou com festa, toca-fitas e óculos ray-ban.
Homem de posses.
Botou comércio, entrou pra política, foi ser prefeito.
Dadinha ficou banguela,
uma penca de filhos para criar 
e ser guia da cega Manuela.
Porém, vez por outra Timbú 
sente uma pontada na espinha,
quando Dadinha lhe dá aquela piscadela.
Pensa! Quanto Dadinha lhe machucou o coração.
Agora sabe que das voltas que o mundo dar,
melhor é se colocar na outra situação,
quem julga aparência e aposta na vaidade,
pode viver, um dia, uma grande decepção.